Há já longos meses que não venho cá. Aconteceram muitas coisas desde a última vez que escrevi.
Passaram-me 4 meses, 4 meses de puro terror. Cresci muito em 2 anos, infelizmente pelos piores motivos. Vi a dor consumir o meu ambiente familiar. Vi o sofrimento de perto. Percebi que nós humanos, que nos achamos tanto, não somos absolutamente nada. Somos apenas um pedaço de carne que é habitado por uma alma. Passaram-se dias, meses ... E já nenhum dos medicamentos fazia efeito. As dores eram cada vez maiores, as noites eram cada vez mais insuportáveis. Os primeiros tratamentos não resultaram, mas mesmo assim eu continuava a ter esperança que os segundos fossem resultar e ajudar a melhorar a situação.
Passou-se um ano. O dia passava normal, mas as noites, todas elas eram infernais. Era ver alguém a sofrer e mesmo querendo ajudar não puder fazer nada, era sentir-me inútil perante tal situação.
Os segundos tratamentos também não resultaram, o tumor não era operável, estava demasiado grande para que o pudessem remover. Restava-nos apenas as radioterapias para o diminuir e restava-nos ainda uma esperança. Dia após dia, via o sono consumi-lo, via os seus olhos pesados, as olheiras presentes num rosto aonde o sofrimento e a dor predominavam cada vez mais à medida que o tempo passava.
O INEM à porta começava a ser frequente, as idas ao hospital também, aonde todos os prognósticos indicavam um final nada feliz.
A comida começou a ser deixada no prato. As dores eram tantas que dormir já se tornava impossível e conversar aborrecido.
Durante a noite cá em casa fazíamos turnos, e mesmo sabendo que no dia seguinte tinha escola de manhã, ficava pela madrugada a dentro a certificar-me de que estava tudo bem.
Até que ... As forças começaram a falhar. Levantar-se já era um esforço tremendo e o apetite já não existia num corpo tão faminto de alegria.
Ajudei a vesti-lo, dei-lhe a comida a boca com a colher nos primeiros tempos, mas depois da situação se complicar, tive de recorrer a uma bisnaga aonde a comida era introduzida completamente ralada para que o pudesse alimentar. As palavras já não eram pronunciadas em condições, e a maior parte do dia era passado numa cama. Mudei-lhe a algália inúmeras vezes e aconcheguei-o todas as vezes antes de adormecer.
Finalmente após meses e meses a fio, conseguimos a tão esperada morfina injetável, era uma divindade para alguém que estava em estado terminal. Com isso, não existiriam mais dores, e poderia dormir em paz, mas apenas isso, fazer uma vida monótona de uma pessoa doente e acamada.
Num fim de tarde, a sua respiração estava ofegante, parecia até faltar o fôlego. Com todas as nobilizações, e aspirações a todas as suas secreções, por uns instantes parecia ter feito melhorar o seu estado.
Mas durante a noite enquanto dormia, a dificuldade em respirar era cada vez maior.
Na manhã seguinte, fui agarrada, pediram-me para não chorar. Ele tinha morrido há cerca de uma hora. Corri para o pé da cama, agarrei-o, o corpo ainda estava quente, e ali chorei, pedindo a Deus para que não o tivesse levado de mim, mas ao mesmo tempo percebendo que já chegava de sofrimento e de tortura.
E depois de uma luta de quase 2 anos, perdi o meu pai. O cancro venceu e ele partiu.
Hoje sou uma pessoa vazia, mas orgulho-me de dizer que o meu Herói é o meu pai, e esteja ele onde estiver será sempre o meu maior orgulho.
SINTO A TUA FALTA. AMO-TE PAI.
Para ti: http://www.youtube.com/watch?v=kG1_w2Txnbs
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